sábado, 13 de fevereiro de 2010

NAMORADOS NO MIRANTE






Eles eram mais antigos que o silêncio

A perscrutar-se intimamente os sonhos

Tal como duas súbitas estátuas

Em que apenas o olhar restasse humano.

Qualquer toque, por certo, desfaria

Os seus corpos sem tempo em pura cinza.

Remontavam às origens - a realidade

neles se fez , de substância, imagem.

Dela a face era fria, a que o desejo

Como um hictus, houvesse adormecido

Dele apenas restava o eterno grito

Da espécie - tudo mais tinha morrido.

Caíam lentamente na voragem

Como duas estrelas que gravitam

Juntas para, depois, num grande abraço

Rolarem pelo espaço e se perderem

Transformados na magna incandescente

Que milênios mais tarde explode em amor

E da matéria reproduz o tempo

Nas galáxias da vida no infinitivo.



Eles eram mais antigos que o silêncio...





Vinícius de Moraes

1 comentário:

Senhor da Pedra disse...

que bonito, não conhecia a sua parceria com Vinicius, um grande poeta e um Grande poema,uma Grande Pintora e um Grande Quadro!
parabéns.
beijinhos
António