NAMORADOS NO MIRANTE
Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
neles se fez , de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformados na magna incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinitivo.
Eles eram mais antigos que o silêncio...
Vinícius de Moraes
1 comentário:
que bonito, não conhecia a sua parceria com Vinicius, um grande poeta e um Grande poema,uma Grande Pintora e um Grande Quadro!
parabéns.
beijinhos
António
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